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CULTURA

O resto é silêncio, disse Hamlet nas suas últimas palavras antes da morte

Zilda Brandão
08/08/2017 às 13:17hs



"O resto é silêncio", disse Hamlet nas suas últimas palavras antes da morte


O silêncio muitas vezes nos é estranho. Como arte, é desistir das palavras para escutá-lo em uma situação natural, desconhecida, restando apenas o exercício de ver. Não se deve falar quando não se tem nada a dizer; o lógico seria apenas observar e acalentar o pensamento com o silêncio diante dos objetos de arte, por exemplo.

No entanto, é difícil hoje em dia encarar o silêncio, esse eterno a que Hamlet se refere, que é o que mais amedronta o homem contemporâneo. Na verdade, nossa sociedade pensa os silêncios de forma negativa. Foge de qualquer forma de silêncio, que parece perturbá-la. Se ela depara com o ambiente vazio, precisa preenchê-lo com sons e ruídos imediatamente, para não ter que se confrontar com ele.

Na arte, pode ser o silêncio encontrado em uma cor. Pode vir de uma forma qualquer, presente em uma pintura abstrata, ou da pintura figurativa de uma paisagem que nos embebeda da calmaria da natureza. Aquela, por exemplo, que percebemos na vista de uma cidade ao longe entre montanhas, de Alberto da Veiga Guignard (1896-1962), ou no mar de Giovanni Baptista Castagnedo (1851-1900). Nos campos e florestas de Antônio Parreira (1860-1937), no céu sem nuvens – ou carregado delas - do Projetos para a construção de um céu, obra de Carmela Gross de 1981, ou nos estandartes brancos balançados pelo vento da memória nas telas de Maria Leontina (1917-1984). Os silêncio dos vazios brancos nos desenhos sobre folhas de papel de Leonilson (1957-1993), a leveza do vazio das monotipias de Mira Schendel sobre papel de arroz japonês. É o que nos ensina o zen-budismo: elogiar a leveza e as sombras do silêncio de um jardim japonês.

São gestos solitários de silêncio feitos de momentos criativos os trabalhos da mostra “do silêncio: vers Leonilson”, que se guarda para si como experiências sensoriais íntimas, como a de quem se propõe a observar os objetos de arte escolhidos para a exposição, por sua natureza silenciosa e contemplativa, como gestos pessoais e solitários de cada artista presente na Galeria Marília Razuk.

A mostra parte de um dos muitos silêncios propostos por Leonilson em sua obra leve, transparente, frágil e muda. Cheia e vazia. De Leonilson passa-se para Maria Leontina, com seus estandartes sobre papel ou tela, longa série de desenhos e pinturas em que retrata formas meios abstratas que remetem a lençóis dependurados em varais, iluminados e esvoaçantes, levados pelo vento. E então caímos nos vazios de Mira Schendel, que nos falam de transcendência, do momento sublime da necessidade de silêncio.

O silêncio na obra de Leonilson se dá nos bordados toscos sobre tecidos frágeis, nas costuras de tecidos leves e transparentes de cores esmaecidas por onde o artista traça suas linhas, letras, palavras em linhas imprecisas. Está no desejo manifestado de ser Penélope, ao tecer silenciosamente, sem fim, enquanto o tempo passa.

Fonte: Assessoria de Imprensa

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